Talvez a gente devesse se permitir não estar sempre produzida
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Talvez a gente devesse se permitir não estar sempre produzida

Acho que todo ser humano deveria se permitir ser um pouco desleixado de vez em quando. Não estou falando de falta de higiene nem de deixar de cuidar de si, e sim daquele “hoje eu não estou a fim” que parece que a gente precisa justificar.

Não quer pentear o cabelo? Faz um coque. Não quer pintar as unhas? Não pinta. Não quer maquiagem? Sai de cara lavada. Não quer escolher uma roupa bonitinha só para comprar pão? Veste a primeira coisa confortável que aparecer.

Depois das redes sociais, coisas que deveriam ser opcionais viraram pequenas obrigações diárias: cabelo arrumado, unha feita, pele bonita, sobrancelha em dia, roupa combinando, perfume, maquiagem. Quando a gente percebe, até sair de casa virou uma produção.

Tem dia em que a gente só não quer se arrumar

Ninguém bate na nossa porta exigindo escova antes de ir à padaria. Mas vemos tantas mulheres arrumadas, tantas rotinas de beleza e tantos get ready with me que começa a parecer que há algo errado quando não estamos produzidas, como se cabelo despenteado fosse sinal de que você desistiu de si mesma. Muitas vezes você só está cansada. Ou não quer gastar quarenta minutos no cabelo para ficar em casa, nem uma hora se produzindo para resolver algo que dura quinze.

Você pode estar bem consigo mesma e só não estar a fim de se arrumar naquele dia.

Cuidar de si e se produzir são coisas separadas, e dá para fazer uma sem a outra.

Mulher com beleza natural e aparência sem produção excessiva

Quem escreveu o manual da mulher bem cuidada?

A gente aceita certas regras como se fossem naturais: que cabelo arrumado é cabelo escovado e finalizado, que unha sem esmalte é unha descuidada, que uma mulher bem cuidada precisa estar maquiada, que a roupa precisa parecer cara. É como se existisse um manual invisível explicando como é preciso parecer para ser respeitada, elegante e pertencer a certos lugares. Mas quem escreveu esse manual? Onde está escrito que você precisa parecer que saiu de um salão caro ou de uma loja de grife?

Muitas vezes não estamos só tentando ficar bonitas: estamos comunicando alguma coisa. “Eu me cuido”, “eu tenho dinheiro”, “eu sou sofisticada”, “eu pertenço a esse lugar”. Talvez aquela bolsa não tenha sido escolhida só porque você gostou dela. Às vezes existe, consciente ou não, a vontade de parecer rica, elegante, bem-sucedida, alguém que pertence. É aí que a beleza pode deixar de ser prazer e virar performance.

Quanto custa parecer?

Não é só o preço da roupa, da maquiagem ou do procedimento. É também o tempo de pesquisar produtos, comprar, ir ao salão, escolher roupa, acompanhar tendências e aprender o jeito de parecer naturalmente elegante. Não há nada de errado em gastar com beleza quando isso é escolha e você gosta. O problema começa quando você sente que precisa.

“Eu gosto disso” é uma coisa. “Eu preciso disso para não parecer menos” é outra bem diferente.

A gente quer pertencer, e a aparência é uma das formas mais rápidas de comunicar isso. Roupa, cabelo, bolsa, sapato e até o jeito de se apresentar funcionam como sinais de grupo. Talvez por isso a ideia de “parecer rica” tenha tanta força: não se trata só de dinheiro, mas do que imaginamos que ele representa, como segurança, status e valor. Então começamos a comprar sinais, como uma roupa que parece mais cara, uma bolsa que transmite certa imagem, um cabelo sempre impecável, e podemos acabar gastando para convencer os outros, e talvez a nós mesmas, de que pertencemos a um lugar.

Só que elegância não deveria ser obrigação financeira, nem beleza prova de poder aquisitivo. Uma roupa simples pode ser bonita. Uma bolsa barata também, um cabelo preso, uma unha sem esmalte, e uma camiseta velha pode ser exatamente a roupa de que você precisava naquele dia.

Mulher demonstrando autoestima e confiança em sua aparência

Autocuidado e produção estética são coisas diferentes

Higiene, saúde, autocuidado e produção estética não são a mesma coisa. Você pode tomar banho, cuidar da pele, lavar o cabelo e passar protetor solar e ainda decidir que não vai fazer escova. Pode gostar de maquiagem, salão e roupas bonitas e passar semanas de unha natural e camiseta larga. Isso não quer dizer que você se abandonou: apenas que não transformou a aparência em obrigação permanente. Gostar de beleza não exige praticá-la todo dia, e você não precisa provar que gosta de si mesma pela aparência.

E se alguém achar você desleixada?

Hoje em dia, raramente eu saio com maquiagem. E não é por desleixo: eu sempre me arrumei, sempre gostei de banho, de perfume, de poucos acessórios, de lavar o cabelo três vezes por semana. O que mudou foi que entendi que todo aquele trabalho para me “camuflar”, para não ofender a ótica alheia com a minha aparência, era uma tremenda perda de tempo.

Hoje é libertador sair para o médico, para o shopping, para o supermercado sem a cobrança de “cobrir o rosto” só porque as outras pessoas podem me achar desleixada. Eu ainda uso maquiagem, mas uso se eu quiser, se não me der trabalho e se não for por insegurança.

É fácil dizer “não me importo com a opinião dos outros”. Na prática a gente se importa: somos seres sociais e queremos ser aceitos. Mas ouvir uma opinião é diferente de organizar a vida em torno dela. Se alguém olhar para a sua camiseta velha e achar você desleixada, essa pessoa tem direito ao pensamento dela, e você não precisa correr para trocar de roupa. Se perguntarem por que não fez a unha, “porque não quis” é uma resposta suficiente.

Se arrumar deveria ser escolha

Não acho que haja problema em querer estar bonita. Seria até contraditório falar de beleza dizendo que ela não importa. É gostoso se arrumar, experimentar uma maquiagem, fazer as unhas, vestir uma roupa que faz você se sentir bem. O problema é quando isso deixa de ser algo que você faz porque gosta e vira algo que sente que precisa fazer para ser aceita. Aí a beleza deixa de ser prazer e vira prestação de contas.

Tem dia de se produzir, passar batom e se sentir maravilhosa. E tem dia de parecer que você acordou e foi viver. Os dois podem ter o mesmo valor. Da próxima vez que sentir aquela obrigação, experimente perguntar: quem disse? Se a regra fizer sentido para você, ótimo, continue. Mas faça porque escolheu, e não por medo de parecer menos.

Talvez a gente devesse se permitir ser um pouco desleixada, sem abandono nem falta de higiene, só para não estar pronta o tempo inteiro, nem parecer cara ou sofisticada o tempo inteiro, nem transformar cada saída de casa em apresentação. Você pode cuidar de si e ainda ter preguiça, amar beleza e não querer maquiagem, gostar de moda e vestir a roupa mais confortável do armário, se produzir inteira num dia e, no outro, simplesmente existir.

A questão nunca foi ser desleixada, e sim poder escolher.

Escolher quando estar impecável, quando gastar com beleza e quando fazer um coque, vestir uma camiseta velha e sair sem pensar muito nisso. Talvez isso também seja autocuidado: não precisar parecer alguma coisa o tempo inteiro.

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